segunda-feira, 26 de março de 2012

A mulher de Jonim Mendonsa, minha prima


Sabe-se lá porquê, a minha prima Lita tem de apelido Mendonsa. Assim mesmo, com “s”, que lhe adveio do marido, ele também emigrado nos States até se passar, já lá vão muitos anos.
Viviam numa cela, como dizia, no que para nós, portugueses de Portugal, era uma cave, e tinham por vizinho um airicho (de irish, está-se mesmo a ver), consumidor inveterado de bias, que partilhava com Komrij, um docha, seu único parceiro habitual, agora que Jonim Mendonsa partira para o outro lado da vida, na versão daqueles que – ainda – acreditam no Além. Os outros terão dito que entregou a alma ao Criador, se são crentes, ou, caso contrário, terão afirmado, ainda que incorrectamente, que foi para debaixo da terra. É que, de facto, foi para cima da água: Lita mandou-o cremar e espalhou as cinzas no mar, do exacto local em que foi concebida a filha mais nova numa madrugada de luar e apetites, daqueles a que não conseguimos negar a evidência e a vontade.
Lita tem duas filhas e três netos, perfeita e completamente assimilados, mas que ainda, aqui e ali, mostram que a língua portuguesa não foi totalmente afastada das suas vivências americanas, colorindo-a, entretanto, com neologismos e outras corruptelas semânticas.
E, se as mães fazem senhoras americanas e os pais têm em conjunto uma marqueta de utilidades, os filhos frequentam a escola alta, são amigos com americanos da sua idade, chamam, em vez de telefonar, duas vezes por dia, as mães, que, por hábito, os chamam para trás, ou seja, lhes devolvem as chamadas, não raro dos telefones da casa das patroas, comem galinha frisada, em vez de congelada, enjoiam os fins de semana em longas sessões familiares de carne no charcoal e bia na frisa, gastam as suas dólares em discotecas de tamanho orgulhosamente americano e donde saem tantas vezes colapsados, trimam uns buxos para ganhar uns extras, são humorosos e fazem o seu melhor para que a sociedade não os mace demasiado com suas leis.
Continuam a festejar as crismas, porque é a festa da família. Gostam de se imaginar futuros bisneiros, ou bossas grandes, eles que são cerasinos, ainda que netos de calafonas.
Lita não clama da vida, lambuza-se com o seu açucrim e agradece a Deus alguma chança na vida (nunca foi ambiciosa), a saúde que nunca lhe deixou, as crianças também saudáveis, os dias fora, sempre passados em família. Agora, que fez o ritaia, e que salvou o suficiente para uma velhice calma e pacata, continuará a viver sem dificuldades de maior.
Mas gostava de voltar, diz-me. Tem um certo receio dos cada vez maiores perigos com gangas, importa-se com isso e com os netos. Pensa mesmo que o sangue alto, única maleita que a tomou, é fruto dessa preocupação. Dessa e com o tenente da cela que acabou por manter e alugou. Está velho o San-Payo, não tem escola, nunca foi de salvar, mal paga o mês… melhor mesmo era preencher as formas para a alferes (welfare, beneficência pública, apresta-se a esclarecer) e, porque a mediqueta, apesar de tudo, não trabalha mal, Lita pode vir descansada, vendido, ainda que em baixa, o beisemento.
Assim as filhas entendam!

quinta-feira, 15 de março de 2012

Também V. Ex.ª, Sr. Presidente da Liga?!

Muita gentinha e alguma gentalha continuam a pensar que meter-se com o Futebol Clube do Porto, diretamente ou por vias travessas, é o código postal para subir de nível nos bastidores ou no palco do futebol.
Ainda não perceberam, tal como o treinador do Benfica não percebeu há semanas, que esse caminho só conduz a um fim: a união do grupo de trabalho. Pôr em causa o clube é acicatar os instintos mais puros dos atletas. Provocar o bom nome da instituição é autocondenar-se à derrota. Que o diga Jorge Jesus!

Mas nem assim!
O Dr. Mário Figueiredo, que ainda não entendeu como chegou ao poleiro, é mais um dos que pensam que meter-se com os dragões vai trazer-lhe dividendos. Estulto, mais um!
E, depois, ficam com cara de Cristos dos Aflitos, a ver bandeiras azuis e brancas a comemorar mais um título... Será que não existe oposição inteligente ao F.C.Porto?

 Já nos bastava que não existisse na política oposição inteligente para acicatar o governo. Também no futebol estamos condenados a um passeio anual pela Liga sem ninguém que se acautele inteligentemente e nos bata o pé? É que com estas virgens ofendidas, estas vacas sagradas da verdade - deles - desportiva, estes atores de ópera bufa, não vamos a lado nenhum.

PS. Alguns me dizem que devia deixar de escrever à volta do futebol, que o futebol não passa de um espaço redutor sem interesse, que estou a perder-me por estes lados. Perdoem-me esses, mas, para mim, ainda que com peneiras académicas, não há melhor espelho sociológico do nosso país do que este fenómeno, alegadamente desportivo, manifestamente uma área de negócio. Ele é o espelho de - quase - todos os nossos complexos atávicos, da inveja ao clientelismo, passando por praticamente todos os escaninhos e alguns paradoxos.

Foi o frio

Recebido por email(por isso, sem qualquer adenda ou correcção): "o plano de exterminação" "Está a correr muito bem. 3000 idosos mortos em 5 dias...é obra que se veja, 3000 idosos x 350€ (ou menos) de pensões poupa-se 1.050.000€...nada mau, Foi o frio. Não tem nada a ver com os baixos rendimentos destes idosos, nada a ver com o custos da energia com a qual se deveriam aquecer, nada a ver com a crescente inacessibilidade aos cuidados médicos, nada a ver com o alto custo dos medicamentos. Foi o frio. Matam-se 10 manhosos nas estradas por via de manobras perigosas e excessos de velocidade, saem as televisões em direto e os jornais em diferido a dar conta de tamanha catástrofe. Legisla-se a favor dos vendedores de pneus, aumentam-se as coimas, investe-se em viaturas e radares para as polícias. Morrem 3000 portugueses vítimas das condições terceiro-mundistas em que viviam, abusados por garotagem sem escrúpulos que os roubou de tudo o que tinham..., e nem um pio, Foi o frio..."

domingo, 4 de março de 2012

O princípio de Peter

As famílias Queirós pululam na imprensa portuguesa. Escrevendo, falando, opinando, eles estão sempre por aí com todos os timbres de opinião existentes nas longas famílias. Um deles, que já foi director, é opinion maker na televisão estatal, costumo ouvi-lo a falar sobre desporto.

Foi o caso da manhã de hoje, referindo-se ainda às declarações de Jorge Jesus no final do F.C. Porto - Benfica.

Dizia ele, na sua doutíssima e esclarecidíssima opinião, que Jorge Jesus não pode e não vai ser castigado porque as suas apreciações ao árbitro auxiliar contêm a mesma carga verbal das do treinador portista em outra ocasião, mas visando também um árbitro.

Ora, se bem recordo, nunca o treinador do F.C. Porto afirmou que o árbitro, ou qualquer dos seus auxiliares, prejudicou voluntariamente a sua equipa. E o que Jorge Jesus disse é que o árbitro auxiliar viu e não quis assinalar, ou seja, deliberadamente roubou os vermelhos.

Que me perdoe o douto comentador, mas insistir que são semelhantes as declarações de Vítor Pereira ou que coincidem com as de Jorge Jesus, fazem-me pensar, se eu fosse capaz de entrar por aí, que se trata de uma afirmação "encomendada", que o aludido Queirós é o mensageiro de alguém que covardemente não dá a cara. Só que não vou mesmo por aí... Tratar-se-á tão somente de atavismo natural e meramente redutor, e a esse nem a televisão pública, paga pelos contribuintes, parece imune. Aliás, lembrando o princípio de Peter, onde cada um é promovido até ao limite da sua incompetência, eu entendo as razões por que a televisão pública continua tão mal gerida em alguns sectores de opinião ou de informação. É que há famílias completas de menos competentes a ilustrar a filosofia do Senhor Peter.