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terça-feira, 16 de junho de 2009

Só posso dizer-te

Esta noite, sonhei contigo.
Contigo ou com os sentimentos?
Contigo ou com os sentidos?

Reparti iodo pela tua pele para ficares com as cores do verão. Do verão ou do moreno? Do verão, porque és o sol? Do moreno, porque és a minha visão singular?

Nos sonhos, não há as marcas do tempo. Só as marcas da paixão? Só as marcas que deixas na minha alma?

Por isso, um dia, ainda que o improvável sobreleve, deixarás de ser a vestal que inunda de fogo as madrugadas. E serás a mulher inteira do desassossego.

Porque cuidarei dos sonhos sem ficção. E não simularei esta angústia de não seres contígua à minha pele. De voares, apenas, neste limbo, que é esta ilusão de te ter, nunca te tendo.

Porque estás para além das montanhas, e não há trilhos escavados na pedra. Porque és uma estrela, e não sei voar o teu infinito.

Porque o teu encalço, apesar de indelével, é a minha utopia.

Esta noite, sonhei contigo. Mas há este vazio onde apenas consigo tactear os contornos impensáveis do fogo.

não quero pintar de ocre o cinzento da alma

(como quem bate à porta à procura de nada)

Há, de facto, quem se sente no sítio certo da vida, e chamam-lhe filósofo. Há quem se deite, demasiado, no lado errado da cama, e chamam-lhe coitado. Há quem não se sente por falta de aldeia, e chamam-lhe poeta.

Somos todos assim quando tentamos pintar de ocre o cinzento da vida.

As voltas que damos às letras para ganharmos vontade de escrever o inexorável… Quando a porta da alma se pinta de negro e o gonzo toca um requiem (ainda se fosse de Mozart) sôfrego de murmúrios que a voz negou, quando a noite apenas apascenta o exaurir de segredos por dizer, mas consabidos, quando as madrugadas se penteiam de fósforo como se bruxas fossem, quando as manhãs apunhalam o sonho faiscando ao sol fora de tempo, quando a alma fica cinzenta e todos querem pintá-la de ocre porque está escrito que as almas – todas – têm de ser ocres, ou serão outra coisa, quando de estranhas vozes se traja a noite, prefaciando o pardacento da manhã, quando de desconformes sonhos se faz o dormir, embutindo as olheiras, há – e haverá – sempre um silêncio reticente e mordaz, cavador de sons hórridos no mar levantado da noite ambígua das almas inertes.

E, se no lento correr das horas se multiplicam as palavras reprovadas... Ou, no acinte dos momentos, a corrosão correr livre... Essa é, então, a hora de partir para onde não seja obrigatório pintar de ocre a alma cinzenta.

Dói-me a cabeça de exaustão. Estou farto de olhares malsãos que me absorvem e censuram nos bancos corridos de um sítio, como se o meu ar, alegadamente sadio, insultasse os fatos negros da doença que se mói por ali. E tanta doença se mói por ali. E tanta censura se faz ao sabor da ditadura das nossas conveniências de de carácter, dos nossos pesadelos insalubres e pintados de medos ou comodismo.